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Histórias

Embora cada jornada de migração seja única, você não está sozinho no que sente. Muitos outros enfrentaram emoções, desafios e momentos de transformação semelhantes. Nesta seção, você encontrará histórias reais de pessoas que trilharam seus próprios caminhos — histórias de perda, resiliência, cura e crescimento.

As experiências deles podem não refletir exatamente as suas, mas podem ecoar algo familiar, algo verdadeiro.

Imagem de Maegan Martin

“A migração não mudou apenas o local onde vivo. Mudou quem eu me tornei!”  — A história de Vlatko

Chamo-me Vlatko e a minha história começou quando tinha 18 anos. Foi nessa altura que tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: mudar-me da Macedónia do Norte para Blagoevgrad, na Bulgária, para estudar na universidade.

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Vim sozinho. A minha família, os meus parentes e os meus amigos ficaram na Macedónia do Norte. No início, não foi fácil. Estava num novo país, numa nova cidade, rodeado de pessoas que não conhecia. Sentia saudades dos meus entes queridos e, naturalmente, procurei outros estudantes da Macedónia do Norte, porque eles me davam uma sensação de segurança e de pertença. Morava num residencial universitário e, pouco a pouco, comecei a construir novas amizades.

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Durante o meu segundo ano na universidade, inscrevi-me no programa «Work and Travel USA». Trabalhei lá durante quatro meses para poupar dinheiro e melhorar a minha vida de estudante. Nos anos seguintes, alternei os meus verões entre o programa «Work and Travel» nos Estados Unidos e trabalho sazonal na costa búlgara do Mar Negro. Estas experiências ensinaram-me independência, disciplina e respeito pelas diferentes culturas.

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Na universidade, tive a sorte de conhecer professores e colegas que me apoiaram. O seu incentivo ajudou-me a adaptar-me com muito mais facilidade e fez-me sentir aceite. Foi também lá que conheci a minha futura esposa, Dimana.

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Depois de concluir a minha licenciatura, prossegui com um mestrado enquanto iniciava a minha carreira em Bansko. Isso marcou o início de um novo capítulo na minha vida. A certa altura, voltei aos Estados Unidos com a intenção de lá ficar definitivamente. No entanto, ao fim de seis meses, percebi que não era ali que queria construir o meu futuro. Regressei à Bulgária porque queria constituir família e construir a minha vida aqui.

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Mais tarde, a Dimana concluiu o mestrado e mudou-se para Bansko para que pudéssemos viver juntos. Ambos trabalhávamos, inscrevemo-nos em programas de doutoramento, casámos e vivíamos num apartamento alugado. Quando decidimos que era altura de ter um filho, comprámos a nossa primeira casa. Foi nesse momento que comecei verdadeiramente a sentir que Bansko — e a Bulgária — se tinham tornado o meu lar.

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A nossa filha, Thea, nasceu e hoje tem seis anos e meio. Pouco tempo depois, a pandemia da COVID-19 mudou tudo. Ambos perdemos os nossos empregos, o que nos obrigou a recomeçar do zero mais uma vez — desta vez em Sófia.

Os primeiros anos não foram fáceis. Mudei várias vezes de emprego, mas nunca desisti. Através da persistência, do trabalho árduo e do desejo de continuar a crescer, acabei por encontrar uma carreira que me inspira e me dá verdadeira satisfação.

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Hoje, aos 40 anos, posso dizer honestamente que me sinto um membro de pleno direito da sociedade búlgara. Sinto-me aceite, respeitado e valorizado. Tenho uma família, amigos, uma carreira gratificante e um lar. Consegui isto não porque a jornada tenha sido fácil. A minha jornada ensinou-me que a migração é muito mais do que simplesmente mudar de um país para outro. É um processo de adaptação, de construir confiança, de criar novas relações e de encontrar um lugar que, com o tempo, começamos a chamar de lar.

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Hoje, ainda me sinto profundamente ligada à Macedónia do Norte — é onde estão as minhas raízes. Mas a Bulgária é o país onde construí a minha família, a minha carreira e o meu futuro. Para mim, «lar» já não é apenas o lugar onde se nasceu. «Lar» é o lugar onde nos sentimos aceites, onde temos a oportunidade de crescer e onde partilhamos a nossa vida com as pessoas que amamos.

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A migração não se resume apenas a mudar o local onde se vive. É uma jornada de aprendizagem, adaptação, coragem e perseverança. Ao longo desta jornada, conheci pessoas que me estenderam a mão para me ajudar, que me deram oportunidades e que me apoiaram enquanto construía uma família, uma carreira e um novo lar.

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Hoje, ainda guardo a Macedónia do Norte no meu coração, mas a Bulgária é o local onde construí a minha vida. É por isso que o nome deste projeto, «Luz no Caminho», tem um significado especial para mim. Ao longo da minha jornada, sempre houve pessoas que iluminaram o caminho a seguir — os meus professores, amigos, colegas, a minha família e, especialmente, a minha esposa, Dimana. Ajudaram-me a encontrar o meu caminho e a acreditar que, independentemente da origem de cada um, se nos forem dados apoio e oportunidades, podemos integrar-nos com sucesso, sentir que pertencemos a este lugar e dar um contributo significativo para a sociedade.

Imagem de Nik

O que é mais importante quando se migra é...

Houve uma altura em que acreditava que os momentos comuns eram apenas isso — comuns.

 

Um jantar em família à volta da mesa. Um telefonema espontâneo de um amigo a perguntar: «Queres ir a uma festa?» Ver um filme no meu cinema preferido. Pedir o mesmo prato no meu restaurante preferido. Caminhar pelas ruas que guardavam anos de memórias. Ouvir vozes familiares. Comemorar aniversários com as pessoas que me viram crescer.

 

Nunca parei para pensar no quão valiosos esses momentos realmente eram. Nunca me apercebi da sorte que tinha até os perder.

 

Por motivos pessoais, tomei uma das decisões mais importantes da minha vida: deixei o meu país e mudei-me para um lugar completamente novo. Estava entusiasmada, esperançosa e cheia de sonhos.

 

No entanto, as minhas coisas «comuns» tinham desaparecido. De repente, vi-me rodeada por ruas desconhecidas, costumes diferentes, comida diferente, humor diferente e pessoas que não conheciam a minha história.

 

No meu país, era a filha de alguém, a amiga de alguém, a colega de alguém. Pertencia a algum lugar.

 

No meu novo país, era simplesmente mais uma estranha a caminhar pela cidade. De engenheira que era, para o país onde me encontrava, nem sequer tinha o certificado do ensino básico.

 

Parecia que uma parte de mim tinha ficado para trás.

 

Havia dias em que me sentia entusiasmada por descobrir algo novo. Noutros dias, sentia solidão, pois sentia saudades da minha família e dos meus amigos.

 

Pouco a pouco, comecei a reconstruir a minha vida. Descobri novos restaurantes. Encontrei novos lugares que, aos poucos, começaram a parecer-me familiares. Conheci pessoas que acabaram por se tornar amigas. Encontrei um emprego em que ajudava os outros. Criei novas rotinas.

 

Mesmo assim, a tristeza ainda me visitava de vez em quando. Perguntava-me por que razão conseguia sentir-me grata pelas minhas novas oportunidades e, ao mesmo tempo, sentir uma tristeza tão profunda.

 

Então, um dia, descobri algo que mudou completamente a minha perspetiva: o luto da migração. Pela primeira vez, percebi que o que estava a viver tinha um nome.

Não era fraqueza. Não era fracasso. Não era ingratidão… Era luto. O luto de deixar para trás pessoas, lugares, tradições, rotinas, identidade e toda uma vida.

 

Compreender o luto da migração ajudou-me de várias formas, especialmente na construção do meu percurso diário.

 

Hoje, posso dizer honestamente que a migração me deu oportunidades que nunca imaginei serem possíveis. Ensinou-me resiliência, coragem, independência, etc. Ter-me-ia tornado a mesma pessoa se tivesse ficado na minha cidade natal?

Talvez.

Talvez não.

 

Mas sei que cada desafio que enfrentei me transformou numa pessoa mais forte e mais determinada do que era antes.

 

Atualmente, continuo a construir o meu caminho.

Há dias maravilhosos.

Há dias difíceis.

Há dias em que ainda sinto saudades de casa com uma intensidade que me surpreende.

E isso não faz mal.

 

A cura não consiste em esquecer de onde vieste. Consiste em aprender a carregar o teu passado enquanto crias espaço para o teu futuro.

 

Se estás a ler isto enquanto te sentes perdido num novo país, quero que saibas uma coisa: NÃO PERDESTE TUDO. Podes ter deixado para trás a tua casa, os teus amigos, a tua língua, as tuas tradições, as tuas rotinas e os lugares que te faziam sentir seguro. Mas ainda carregas contigo a coisa mais valiosa que alguma vez tiveste:

Tu próprio.

As tuas experiências.

Os teus sonhos.

A tua coragem.

A tua capacidade de recomeçar.

És mais forte do que pensas.

És mais resiliente do que imaginas.

Nenhuma barreira linguística pode apagar o teu valor.

Nenhum dia de solidão pode definir o teu futuro.

 

E um dia, sem sequer dares por isso, as ruas que antes te pareciam estranhas começarão a parecer-te familiares. A língua que te assustava tornar-se-á natural. A cidade que te fazia sentir invisível tornar-se-á, aos poucos, parte da tua história.

 

O teu caminho pode não ser fácil. Mas vale a pena e há luz nele.

Continua a acreditar em ti. Continua a dar um pequeno passo de cada vez. Continua a construir o teu novo caminho. Continua a avançar e a brilhar.

 

E lembra-te:

Às vezes, a vida não nos pede para escolher entre o nosso antigo lar e o nosso novo.

Às vezes, convida-nos a levar ambos no nosso coração.

A tua história não está a terminar…. Está apenas a começar.

Imagem de Drew Beamer

“Amor além-fronteiras”

As pessoas costumam pensar que a migração consiste simplesmente em fazer as malas e começar uma nova vida noutro país. Na realidade, é muito mais complicado. Por trás de cada mudança, há meses de planeamento, burocracia, incerteza e decisões difíceis.

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         A minha história reflete esses desafios. Dentro de algumas semanas, o meu namorado e eu vamos mudar-nos para os Países Baixos. Embora eu seja cidadã da UE, ele é de um país fora da União Europeia, o que tornou o processo muito mais difícil. Tivemos de nos informar sobre as diferentes regras de imigração, reunir documentos, cumprir requisitos legais e aguardar decisões que estavam fora do nosso controlo. O maior desafio não foi a distância em si, mas sim a incerteza. Nunca sabíamos quanto tempo o processo iria demorar nem se tudo correria como planeado. Foi preciso paciência, um planeamento cuidadoso e a capacidade de nos adaptarmos quando as coisas não aconteciam tão rapidamente como esperávamos.

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       Após meses de preparação, finalmente alcançámos o nosso objetivo. Em breve, daremos início a um novo capítulo num novo país. Esta experiência ensinou-nos que a migração não se resume apenas a mudar de local de residência. Trata-se de superar obstáculos, adaptar-se a novas circunstâncias e continuar a avançar mesmo quando o caminho é difícil, porque há sempre uma luz à nossa espera. A nossa jornada mostrou-nos que, por trás de cada pessoa que emigra, há uma história de determinação, esperança e coragem para construir um futuro melhor.

Image by Kelli McClintock

História da Lucy

A primeira razão era que havia muito poucas oportunidades de emprego na minha comunidade. Na verdade, há dez anos, sempre que encontrávamos velhos amigos na rua, as pessoas brincavam: «Astúrias ou trabalho?» Muitos jovens emigraram na casa dos vinte anos em busca de oportunidades de emprego, na esperança de se desenvolverem profissionalmente e se tornarem independentes.

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Era triste estar nas Astúrias e ver principalmente pessoas mais velhas, sabendo que grupos de jovens tinham partido para as grandes cidades de Espanha e da Europa. Quase não restava ninguém, e a sensação de sufoco tornava-se cada vez mais avassaladora.

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Por outro lado, dois anos antes de eu decidir emigrar, o meu pai faleceu após uma longa doença…

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Quando emigrei, decidi mudar-me para um lugar onde sempre sonhei viver. Decidi voltar e retomar os meus estudos de antropologia, e decidi mudar-me com um rapaz por quem estava apaixonada. Nada poderia correr mal. Era o plano perfeito: amor, desenvolvimento pessoal e a cidade dos meus sonhos.

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Quando cheguei a Granada, caí numa profunda depressão que durou quase dois anos. Era impossível conciliar os meus estudos universitários com os empregos precários que conseguia encontrar. A atitude do meu namorado em relação a mim mudou completamente. Não tinha amigos, não conhecia ninguém, sentia-me um fracasso. Sentia que, independentemente de onde fosse, nunca encontraria paz. Estava a sofrer tanto que acabei por desenvolver um vício. A minha vida era um caos. Estava sozinha e não sabia como me recompor. Foi a crise mais profunda que alguma vez vivi…

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No meio de todas estas experiências, a vida segue o seu curso. Acompanhei, literalmente, mães que deram à luz sozinhas no nosso país; rezei com elas numa língua estrangeira, e elas contaram-me como sobreviveram a oito dias a atravessar o oceano sem comida nem água. Também tive de dar más notícias, como quando um jovem pensou que ia morrer depois de receber o diagnóstico de VIH. Felizmente, os cuidados de saúde em Espanha são universais e gratuitos, por isso hoje ele é um homem feliz, genuinamente carismático e divertido.

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Vivi alguns dos momentos mais loucos e divertidos da minha vida com rapazes marroquinos que atravessaram o mar sozinhos quando ainda eram menores. São como flores que crescem no betão, desabrochando apesar das barreiras, da rejeição e do racismo.

 

Aprendi a sorrir com mais entusiasmo porque algumas raparigas palestinianas me ensinaram que a esperança sobrevive mesmo entre as ruínas.

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Guardo com carinho milhares de histórias e memórias, tantas quantas as pessoas que acompanhei ao longo dos anos. Olho para o futuro com entusiasmo, perguntando-me quem estará a caminho e que histórias trarão consigo.

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Penso em como podemos construir uma sociedade mais acolhedora para eles. É por isso que participo em iniciativas cidadãs para garantir que todos os direitos dos nossos companheiros migrantes sejam protegidos, para que ninguém fique sem estatuto legal. Gosto de contribuir com a minha pequena parte para tornar a nossa sociedade digna da humanidade que a define.

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Acredito que este projeto contribui para esse objetivo, e é por isso que estou feliz por ter feito parte dele e por poder partilhar a minha história convosco.

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Muitas pessoas comuns, a fazer pequenas coisas, podem mudar o mundo.

Imagem de Hester Qiang

História da Dana!

Eu sou a Bohdana Machohan, sou ucraniana e estou em Portugal há muitos anos. Vim para Portugal porque surgiu uma oportunidade de trabalho, num restaurante, e como tinha uma filha bebé e precisava de nos sustentar, decidi aceitar e abraçar a mudança.

Vir para Portugal sozinha e tão nova não foi fácil. Lidar com a mudança, sem família e amigos por perto para me apoiar foi difícil, contudo não foi o mais difícil. Não falar português dificultou ainda mais o processo de mudança e adaptação. Quando cheguei a Portugal fiquei numa casa onde partilhava o quarto com mais três pessoas. Estas três pessoas, que eu ao princípio pensei que me podiam ajudar, só me complicaram mais a vida. Tiraram-me o passaporte, obrigaram-me a pagar a parte delas do quarto e também me obrigaram a fazer os turnos daquela que trabalhava comigo no restaurante. Foram tempos muito difíceis, mas sem dinheiro, sem documentos e sem falar português não via como sair daquela situação, o que me restava era o meu trabalho, que eu gostava e era boa a fazer o que fazia.

Houve um dia que as colegas de quarto fizeram uma festa na casa, alguém fez uma queixa e elas culparam-me pela festa e eu fui posta na rua. Contudo o abuso não acabou aí, porque elas tinham o meu passaporte. Bateram-me, tiraram-me o dinheiro todo que eu tinha e disseram-me que para eu ter o meu passaporte de volta tinha de lhes dar 100€. Foram os meus patrões na altura que me ajudaram a sair desta situação porque quando eu fui trabalhar o meu patrão reparou nas minhas nódoas negras no pescoço e começou a rir-se, pensando que eram chupões. Eu, sem percebendo o que ele queria dizer e sem conseguir explicar-me, comecei por rir também, mas depois veio o choro incontrolável. O meu patrão ficou muito preocupado e chamou uma funcionaria que também era ucraniana para fazer a tradução. Os meus patrões quando souberam o que se tinha passado, despediram a pessoa que trabalhava no restaurante, ajudaram-me a encontrar outra casa para ficar e a reaver o meu passaporte.

Quando achei que as coisas estavam finalmente a correr bem, a minha mãe liga-me preocupada com a minha filha, porque dois/três anos não falava. Foi ao hospital com ela e descobriram que ela tinha um cancro na garanta. Em cinco anos ela teve cinco operações e como os tratamentos e medicamentos eram muito caros eu não tive outra hipótese a não ser continuar a trabalhar e apoiar a minha filha de longe. A minha filha superou o cancro, eu apaixonei-me, tive mais uma filha e mantive-me em Portugal, agora com uma vida mais estável.

Quando a guerra na Ucrânia começou foi muito preocupante, ver as notícias na televisão e não saber se os nossos estão bem é muito angustiante. Contudo, mantive o contacto com os meus pais e com a minha filha, eles não vivem perto da guerra, mas é sempre uma incógnita, não sabemos quando irá lá chegar. Agora, que a guerra dura há muito tempo, eu estou mais descansada porque a minha família não está preocupada, e se eles estão bem eu estou bem também.

Ao refletir sobre a minha experiência de migração, sei que não foi fácil, passei por muitas situações complicadas que preferia não ter passado, mas quando olho para trás só consigo ver a sorte que tive. A sorte de ter tido uma ótima filha, que apesar da distância isso não afetou a nossa relação, a sorte de ter tido uns ótimos pais que me apoiaram e tomar conta da minha filha, a sorte de ter tido um ótimo trabalho com bons patrões que me ajudaram no que podiam e o melhor que podiam, a sorte de ter encontrado um homem que me trata bem e que me ama. Apesar de tudo, sou muito sortuda e não mudava a minha vida em Portugal por nada.

Image by Nick Fewings

A MINHA HISTÓRIA… MINA

Olá, eu sou a Mina, tenho 62 anos, sou portuguesa e emigrei para a Suiça, ainda muto jovem e tive lá durante 20 anos…

Eu fui para outro país, porque os meus pais eram de uma zona do Alentejo (Portugal), bastante pobre e sem recursos, primeiro viemos morar para a Sintra à procura de melhores condições de vida. Passado alguns anos o meu pai migrou e a seguir foi a familia toda.

Ao emigrar encontrei grandes desafios. Em primeiro lugar a língua.

Em Zurique fala-se alemão.

Como para mim era difícil aprender comecei a falar italiano para me poder desenrascar no dia a dia…

Conheci uma miúda italiana da minha idade e andávamos sempre juntas e ficamos amigas e foi assim que aprendi a falar italiano, que me foi depois muito útil…

Quando deixei o meu país , senti muita tristeza, estava numa fase de pré - adolescência dos namoricos, dos bailes que havia na zona rural e dos meus amigos, especialmente das minhas primas e de dos livros em português, gosto muito de ler, dos programas de televisão, em suma da cultura portuguesa, que é muito rica e variada e do mar…

Quando fui para lá, deixei um pouco das minhas raízes, a falta de estudo e a convivência em geral.

As saudades foram imensas, tinha saudades de tudo, da liberdade, que Portugal, tinha conquistado no dia 25 de Abril de 1974 e de brincar na rua até tarde, sem haver perigo ou preocupações…

Quando cheguei à Suiça o melhor que me podia ter acontecido para me adaptar melhor , foi ter conhecido um rapaz português que viria a ser o meu marido e constituímos uma familia e tenho dois filhos maravilhosos, que hoje em dia são o meu pilar com os meus netos, porque entretanto perdi o meu marido há alguns anos…

Adaptei-me à escola alemã e ainda antes dos 18 anos tirei a carta de condução…

Consegui trabalho num hospital Universitário de Zurique, entrei como empregada de limpeza e passado pouco tempo já era auxiliar de ação médica, num bloco operatório de neurocirugia, onde fiz várias formações e cursos de técnica instrumentista, ou seja dava os instrumentos nas cirurgias do professor Doutor Yasargil, um médico muito conceituado visto ter sido o pai da microcirugia… Inventou o microscópio para as cirurgias mais específicas como a aneurismas, tumores, hemorregias cerebrais. Aí além de muitos conhecimentos essenciais para salvar vidas, ganhei uma nova família, nunca perdendo o contato com o Doutor e acompanhei todo o percurso dele até falecer o ano passado.

Agora em sua homenagem existe a Fundação Yasargil para dar continuidade ao seu legado na área do ensino , criando novos cirurgiões seguindo as suas teorias, na qual tenho a honra de fazer parte…

Ao emigrar ganhei muita experiência de vida, tanto profissional como pessoal.

Fiz muitas viagens e várias culturas e aprendi várias línguas  e fiz amizades para a vida inteira…

Mas quando regressei a Portugal, foi mais complicado, tive muitas dificuldades de integração…

Senti-me muito triste na altura, foi muito difícil, no meu próprio país eu sentia-me uma emigrante…

Fui mal “tratada” quando fui à segurança social e desvalorizaram  todo o trabalho e percurso que eu tinha construído ao longo de 20 anos na Suiça…dizendo que não ía ter oportunidade de equivalências no emprego…

Tive de começar tudo da estaca zero. Como só tinha a 4 ª classe na altura, tive de dar a volta por cima e fui estudar até concluir o 12º ano, o que não foi nada fácil, já era mãe, os meus filhos eram pequenos e também andavam na escola na mesma altura.

Image by magnezis magnestic

Há luz no caminho, mesmo que seus pés ainda estejam encontrando o caminho

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